¶ Um tope musical de 2011
01 - Fleet Foxes - Helplessness Blues
02 - Fausto - Em Busca das Montanhas Azuis
03 - Bon Iver - Bon Iver
04 - Feist - Metals
05 - Goldmund - All Will Prosper
06 - Laura Marling - A Creature I Don't Know
07 - Jay-Z & Kanye West - Watch The Throne
08 - Siskiyou - Keep Away The Dead
09 - Marcelo Camelo - Toque Dela
10 - Common - The Dreamer / The Believer
11 - Bill Callahan - Apocalypse
12 - Dead Combo - Lisboa Mulata
13 - Jens Lekman - An Argument With Myself
14 - Wolf Gang - Suego Faults
15 - Fionn Regan - 100 Acres of Sycamore
16 - Mayer Hawthorne - How Do You Do
17 - Giorgio Tuma - In The Morning We'll Meet
18 - The Roots - Undun
19 - Kurt Vile - Smoke a Ring For My Halo
20 - Marissa Nadler - Marissa Nadler
Eu sei que tinha dito que o Fausto tinha feito o melhor disco do ano, mas reconsiderei. Continua a ser muito bom. E sim, falta-me ouvir tanta coisa que poderia entrar aqui.
¶ Tudo vai dar à escrita
Quem me conhece sabe que não sou dado a patriotismos. Não sei se isso é bom ou mau. Sei porque é que sou assim e se calhar o motivo não é o mais correcto. É que para mim o patriotismo está demasiado associado ao nacionalismo obtuso da direita extremista. Eu tenho consciência de que isto é redutor. Também haverá patriotismo de esquerda, de centro, anarquista, etc. O problema é meu, que vejo perigo na ideia de patriotismo. Por exemplo, choca-me menos ver o Benfica jogar com onze estrangeiros na equipa inicial, do que ver um clube (sim, não é uma selecção nacional) como o Athletic Bilbao a ter agora, em finais de 2011, pela primeira vez, um jogador negro na sua equipa. E ele só lá está porque nasceu no País Basco, condição fundamental para poder jogar no Athletic. Eu até sou a favor da independência de Bascos, Catalães e quem mais queira ser independente. Mas estes patriotismos assustam-me um pouco, confesso.
Contraditoriamente, sinto depois um certo orgulho quando vejo alguns portugueses fazerem coisas que admiro. Regozijo-me por terem nascido no mesmo país que eu. Talvez o faça para me motivar a mim mesmo. Talvez seja uma forma de não desesperar por ter nascido aqui, de me convencer de que é possível, mesmo tendo em conta as condicionantes todas, sair por cima.
Isto tudo para dizer que me dá um certo gozo dizer que o meu filme preferido de 2011 é português. E o meu disco preferido de 2011 é português. Falo de Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, e de Em Busca das Montanhas Azuis, de Fausto Bordalo Dias. Gostava de ter escrito sobre o filme quando o vi, como também gostava de ter escrito sobre The Tree of Life, de Terrence Malick. Para ambos, dou a desculpa de que o farei quando os tiver em DVD. E quanto ao Fausto, a minha desculpa é a mesma de sempre: não sei escrever sobre música. O único pensamento, digno de partilhar, que me ocorreu nas várias audições do disco duplo foi que há momentos em que os versos que Fausto canta me fazem lembrar a poesia de Herberto Helder. Isto, para mim, é um elogio enorme à escrita de Fausto. Não é, contudo, um disco que viva só da escrita, embora esta me pareça o seu ponto mais forte.
Uma das coisas que mais me chamou à atenção foi a extrema eficácia com que Fausto nos leva para as paisagens africanas que descreve. E aqui o mérito é quase exclusivo das palavras, porque a música nos remete mais para a tradição portuguesa (e sim, eu sei que a tradição portuguesa está cheia de influências de África e de todos os sítios por onde andámos), do que para ritmos africanos. Isto produziu na minha cabeça uma associação de ideias um bocado bizarra (mas quem lê este blogue está habituado a que eu relacione coisas sem relação, como o Kafka com o Apichatpong Weerasethakul). Fez-me lembrar de um livro que li há pouco tempo, Writing Fiction, e de um capítulo em particular: o da descrição. A descrição é um dos aspectos da escrita em que sinto mais dificuldade. Por um lado porque me é difícil fazê-lo bem, por outro porque me agrada a ideia de deixar muitos buracos descritivos a serem preenchidos pelo leitor. No entanto, este capítulo deste livro fez-me pensar muito no assunto. Uma das coisas que lá se diz, e não é nenhuma ideia original, é até das mais evidentes sobre a descrição, é que quanto melhor conhecermos as coisas que descrevemos, mais eficaz se torna a descrição. Isto é, funciona melhor dizer que havia naquela praceta um grande carvalho do que dizer que havia uma árvore. Mesmo que o leitor seja um ignorante em botânica tão grande quanto eu, ao ponto de não saber distinguir um carvalho de outra árvore (a não ser um pinheiro, isso acho que sei), o escritor transmite uma outra certeza daquilo que diz e torna-se para nós, leitores, mais fácil acreditar. A verosimilhança ganha força. É por isso que quando Fausto canta “e cobrem o ar gafanhotos / mosquitos e moscos / pavões e patolas / libelinhas / zangões / borboletas / tabões / abelhinhas / gralhas / galinholas // e no chão / abertos os gorgomilhos / há bichas e crocodilos,” apesar de eu reconhecer apenas alguns destes bichos, a nomeação de todos eles contribui decisivamente para a criação de uma imagem exótica na imaginação. E isto funciona também com a nomeação das tribos, dos rios, dos montes e com a utilização de algum vocabulário da época retratada.
A mim assusta-me um bocado a ideia de investigar para escrever. Mesmo que essa investigação se resuma a saber o nome de meia-dúzia de árvores. No entanto, quem me conhece sabe que penso muito na escrita, se calhar demasiado, e sou obcecado por fazer sempre melhor. Ter consciência de que as minhas capacidades descritivas são fracas é meio caminho andado para me obrigar a melhorá-las. Mesmo que decida usar muito pouco esse recurso naquilo que escrevo, não estarei em paz comigo enquanto não me forçar a fazê-lo melhor.
Contraditoriamente, sinto depois um certo orgulho quando vejo alguns portugueses fazerem coisas que admiro. Regozijo-me por terem nascido no mesmo país que eu. Talvez o faça para me motivar a mim mesmo. Talvez seja uma forma de não desesperar por ter nascido aqui, de me convencer de que é possível, mesmo tendo em conta as condicionantes todas, sair por cima.
Isto tudo para dizer que me dá um certo gozo dizer que o meu filme preferido de 2011 é português. E o meu disco preferido de 2011 é português. Falo de Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, e de Em Busca das Montanhas Azuis, de Fausto Bordalo Dias. Gostava de ter escrito sobre o filme quando o vi, como também gostava de ter escrito sobre The Tree of Life, de Terrence Malick. Para ambos, dou a desculpa de que o farei quando os tiver em DVD. E quanto ao Fausto, a minha desculpa é a mesma de sempre: não sei escrever sobre música. O único pensamento, digno de partilhar, que me ocorreu nas várias audições do disco duplo foi que há momentos em que os versos que Fausto canta me fazem lembrar a poesia de Herberto Helder. Isto, para mim, é um elogio enorme à escrita de Fausto. Não é, contudo, um disco que viva só da escrita, embora esta me pareça o seu ponto mais forte.
Uma das coisas que mais me chamou à atenção foi a extrema eficácia com que Fausto nos leva para as paisagens africanas que descreve. E aqui o mérito é quase exclusivo das palavras, porque a música nos remete mais para a tradição portuguesa (e sim, eu sei que a tradição portuguesa está cheia de influências de África e de todos os sítios por onde andámos), do que para ritmos africanos. Isto produziu na minha cabeça uma associação de ideias um bocado bizarra (mas quem lê este blogue está habituado a que eu relacione coisas sem relação, como o Kafka com o Apichatpong Weerasethakul). Fez-me lembrar de um livro que li há pouco tempo, Writing Fiction, e de um capítulo em particular: o da descrição. A descrição é um dos aspectos da escrita em que sinto mais dificuldade. Por um lado porque me é difícil fazê-lo bem, por outro porque me agrada a ideia de deixar muitos buracos descritivos a serem preenchidos pelo leitor. No entanto, este capítulo deste livro fez-me pensar muito no assunto. Uma das coisas que lá se diz, e não é nenhuma ideia original, é até das mais evidentes sobre a descrição, é que quanto melhor conhecermos as coisas que descrevemos, mais eficaz se torna a descrição. Isto é, funciona melhor dizer que havia naquela praceta um grande carvalho do que dizer que havia uma árvore. Mesmo que o leitor seja um ignorante em botânica tão grande quanto eu, ao ponto de não saber distinguir um carvalho de outra árvore (a não ser um pinheiro, isso acho que sei), o escritor transmite uma outra certeza daquilo que diz e torna-se para nós, leitores, mais fácil acreditar. A verosimilhança ganha força. É por isso que quando Fausto canta “e cobrem o ar gafanhotos / mosquitos e moscos / pavões e patolas / libelinhas / zangões / borboletas / tabões / abelhinhas / gralhas / galinholas // e no chão / abertos os gorgomilhos / há bichas e crocodilos,” apesar de eu reconhecer apenas alguns destes bichos, a nomeação de todos eles contribui decisivamente para a criação de uma imagem exótica na imaginação. E isto funciona também com a nomeação das tribos, dos rios, dos montes e com a utilização de algum vocabulário da época retratada.
A mim assusta-me um bocado a ideia de investigar para escrever. Mesmo que essa investigação se resuma a saber o nome de meia-dúzia de árvores. No entanto, quem me conhece sabe que penso muito na escrita, se calhar demasiado, e sou obcecado por fazer sempre melhor. Ter consciência de que as minhas capacidades descritivas são fracas é meio caminho andado para me obrigar a melhorá-las. Mesmo que decida usar muito pouco esse recurso naquilo que escrevo, não estarei em paz comigo enquanto não me forçar a fazê-lo melhor.
¶ Está feito
Esgotou a edição do meu livrinho. Os trinta exemplares desta primeira tiragem estão destinados. Obrigado e espero que gostem.
¶ Dois contos, dois euros
O meu amigo João Sobral, através do seu projecto o panda gordo, fez esta bonita edição de dois contos meus. O livrinho tem duas faces, ou seja, pode começar a ler-se de qualquer um dos lados, e depois é virá-lo ao contrário e começar pela outra capa. De um lado está o conto “Mar, até desaparecer” e do outro o conto “Ninguém com esse nome.” A tiragem é de 30 exemplares, numerados, e cada exemplar custa 2 euros. Um euro por conto parece-me um preço simpático. Os livrinhos são cosidos à mão pelo inestimável João (com uma mãozinha da querida Joana, que aprendeu há pouco tempo) e acho que ele merece que se apoie este projecto. E eu também gostava que me lessem.
Interessados em comprar um exemplar (ou mais, que o Natal está aí à porta e não há muitas prendas com este gabarito a 2 euros) podem entrar em contacto comigo ou com o panda gordo.
Interessados em comprar um exemplar (ou mais, que o Natal está aí à porta e não há muitas prendas com este gabarito a 2 euros) podem entrar em contacto comigo ou com o panda gordo.


