The Golden Age



aqui tinha dito que o Woodkid ia fazer o disco do ano, facto que ainda não posso comprovar. Apesar de já ter saído há uns dias (i.e. já terem surgidos links na gloriosa internet), só agora estou a ouvir pela primeira vez The Golden Age. Está a soar bem, é verdade, mas menos energético e mais introspectivo do que esperava. O que não é necessariamente mau. O primeiro vídeo (se descontarmos “Run Boy Run”, que já tinha sido lançado em EP homónimo, e “Iron”, idem), que podem ver aqui acima, é que não se limita a manter a fasquia dos anteriores, mas supera-a. Talvez Woodkid, a.k.a. Yoann Lemoine, seja melhor realizador do que músico, mas eu prefiro que ele não tenha de escolher. (Curioso é o facto de os vídeos que realiza para as suas próprias canções serem, de longe, melhores do que os que fez para outros artistas.) Mesmo que o disco não cumpra a minha premonição, já teve o mérito de me voltar a pôr a ouvir música.

Planos para esta tarde (e mais três)

Porque não aproveitar um bonito sábado para discutir as grandes questões do nosso tempo? Como o de hoje, não haverá muitos mais, por isso sugiro-vos, que ainda vão bem a tempo, que se metam a caminho de Setúbal, onde às 17h terá início a primeira Conversa Orgia Literária, organizada por mim e pelo Tiago Apolinário Baltazar — que será o moderador e estará à conversa com a Sara Figueiredo Costa e o Pedro Mexia. Já temos mais duas conversas planeadas (sendo que eu vou moderar a terceira), como se pode ver neste bonito cartaz feito pela Marlene.


Sei o que fiz no Natal passado

Isto é um conto que eu escrevi na véspera de Natal, como quem imita o Emanuel. Ele é mais fixe que eu. O meu paga-se. Custa 1 euro e tenho 10 exemplares.

Uma piada que não está a ter piada II

Li mais umas páginas de A Piada Infinita. Benevolente, mas ao mesmo tempo triste. Triste porque queria mesmo ler este livro e queria mesmo lê-lo em português, porque sei que no inglês vou tropeçar muitas vezes em partes mais complicadas. O problema é que estou a tropeçar muitas vezes na tradução portuguesa. E em partes que não são particularmente complicadas.

Pronto, é verdade que não é fácil traduzir a forma que o narrador utiliza para falar da mãe, “the Moms,” mas optar por “mã” soa só a deficiente. Ainda assim, perdoo. Avanço.

A cena que se apresenta é uma memória de Hal Incandenza em criança. Aparece no jardim, onde estão a sua “mã” e o seu irmão Orin. Hal aparece a chorar, trazendo uma coisa bolorenta na mão. Diz à mãe que comeu aquilo. E a mãe (p. 18):

aproximou-se para pegar no que o seu bebé tinha na mão — como tantas vezes havia feito com lenços muito usados, caramelos sujos ou pastilhas elásticas já mascadas em tantas salas de cinema, aeroportos, assentos traseiros de carros ou salões de torneios?

Eu sei que sou picuinhas, mas aquele ponto de interrogação no final fez-me confusão. Não estava a fazer muito sentido. Então fui ver o original, em que a mãe:

reached to take whatever her baby held out — as in how many used heavy Kleenex, spit-back candies, wads of chewed-out gum in how many theatres, airports, backseats, tournament lounges?

(Os sublinhados são meus.) A tradução que fizeram faria sentido se substituíssem o ponto de interrogação por um ponto final. Mas aí eu iria reclamar que estavam a alterar coisas desnecessárias. Então, quase bem, mantiveram o ponto de interrogação, mas não tiveram a astúcia de perceber que não basta colocar um ponto de interrogação no final para a frase parecer interrogativa. É preciso mais qualquer coisa. É preciso que aqueles “how many” sejam traduzidos não por “tantas” mas por “quantas.” Mas se calhar estou só a ser picuinhas.

Tal como pode ser picuinhas achar que se desvirtua bastante o discurso de Hal quando ele diz, na página 19, coisas como “I bet I’ve read everything you’ve read” ou “Please don’t think I don’t care” ou “Please don’t worry” e os tradutores traduzem por “Aposto que li tudo o que os senhores professores leram” e “Peço-lhes o favor de não pensarem que não me importo” e “Façam o favor de não se preocuparem.” Sim, aceitemos que sou picuinhas.

Tal como sou picuinhas ao reparar numa falha — por distracção? — que acontece na página 20. Hal Incandenza está a ter um ataque em frente ao deões. Já o deitaram no chão. E ele diz:

— Sou o que veem e ouvem. 
Sirenes ao longe. Um golpe de luta livre brutal. Figuras à porta. Uma jovem hispânica tapa a boca com a mão enquanto observa. 
— Não sou — digo.

Estranhei a contradição. Afinal é ou não é? Mas, ei!, ele está a ter um ataque! Perdeu o juízo. Já não sabe o que diz. Só que na versão original ele diz “I am not what you see and hear.” E culmina repetindo “I’m not.” Mas, vá lá, eu perdoo a distracção. Provavelmente o tradutor não reparou naquele “not” e achou que era uma contradição própria de quem está a ter um ataque. Admitamos tudo isso e perdoemos.

O que não admito, e não acredito que haja muita gente que não concorde comigo, é que os tradutores acrescentem ao texto frases que ele não tinha, como acontece na página 19. Hal está a falar para os deões, depois de muito tempo em que não disse nada. E começa a disparar frases sem parar. Há um primeiro parágrafo de discurso directo e depois um segundo. Na transição de um para o outro não há qualquer intervenção do narrador. No original, a coisa é assim:

‘(...) My instincts concerning syntax and mechanics are better than your own, I can tell, with due respect. 
But i transcends the mechanics. I’m not a machine. (...)’

Talvez eu dê demasiada importância à literatura. Não discuto. A verdade é que fiquei chocado quando vi aquilo, porque o que aparece na tradução portuguesa é:

— (...) Os meus instintos sintáticos e mecânicos são melhores que os vossos. Digo isto com o devido respeito. 
Faço uma pausa, antes de prosseguir: 
— Mas transcendem a mecânica. Não sou uma máquina.

Suponhamos que aceitamos erros menores. Suponhamos que aceitamos a perda da oralidade. A troca de sotaque por gesto. A troca de desportista por jerico. Isso tudo. Aceitamos tudo. Tudo, excepto acrescentarem coisas ao texto que ele não tinha. Isto, lamento imenso, é inaceitável.

Uma piada que não está a ter piada

Hoje comecei a ler A Piada Infinita, de David Foster Wallace. Comecei ontem à noite, mas tecnicamente já era hoje porque já passava da meia-noite. E comecei com alguma solenidade, como quem se prepara para um evento importante da sua vida. Estava disposto a desfrutar da viagem.

Os tempos da Internet, das compras online, dos downloads legais e ilegais, permitem coisas que antigamente seriam se não impensáveis, pelo menos muito difíceis. Permitem-me, por exemplo, estar a ler a tradução portuguesa (de Salvato Telles de Menezes e Vasco Teles de Menezes) tendo ao lado a edição original, Infinite Jest, e a tradução espanhola, La Broma Infinita (traduzida por Marcelo Covián).

Os problemas começaram cedo. Ao contrário da Isabel Lucas, que acha que “seria mesquinho apontar defeitos” à tradução, eu acho que seria mesquinho fazer vista grossa porque, coitadinhos, tiveram tanto trabalho e não merecem que isso seja criticado. Eu acho mesquinho dar palmadinhas nas costas por trabalhos que não estão bem feitos, só porque eram difíceis à partida.

Eu respeito o Salvato, reconheço todo o mérito do seu trabalho de tradutor (não digo o mesmo do Vasco porque não conheço o seu trabalho anterior). Se não fosse assim, não o teria escolhido para ser um dos entrevistados no meu artigo sobre tradutores no Ípsilon. De modo que sinto que seria mesquinho não apontar defeitos neste trabalho, quando depois de ter lido menos de 10 páginas já me sinto inclinado a desistir da tradução e ler o original.

A primeira coisa que me faz confusão nas traduções portuguesas do inglês, não nesta em específico, é a necessidade de transformar as aspas em travessões. Isto irrita-me. Há autores portugueses que também usam aspas para diálogo. Para quê mudar isso? O Paulo Faria, outro dos tradutores que entrevistei, não coloca travessões nos diálogos do Cormac McCarthy, porque ele não os usa. Também não usa aspas. Ora, essa ausência de marca de diálogo seria bem mais difícil de acompanhar pelo leitor do que as aspas. Então porque é que o Paulo Faria deixou assim? Para respeitar o estilo do autor. Do mesmo modo, o Foster Wallace opta por usar uma só aspa, ‘assim’, em vez das aspas duplas. Foi uma opção dele. Porque é que temos de mudar isso para travessão?

Isto ganha contornos ainda piores quando depois não se pode usar o travessão como sinal de interrupção no discurso. Uma frase interrompida a meio, tem de terminar com um travessão. E isso é diferente das reticências, que dão a entender uma suspensão menos abrupta. Usando as aspas para marcar diálogo, Foster Wallace pode usar o travessão para marcar interrupções desse diálogo. Usando o travessão a marcar o diálogo, os tradutores viram-se obrigados a substituir os travessões de suspensão por aspas.

E pior ainda. Há parágrafos no original que começam com discurso indirecto e, no mesmo parágrafo, abre-se aspas para começar o discurso directo. Na tradução portuguesa (e na espanhola também), nestas situações dá-se sempre parágrafo quando começa o diálogo. Isto, por muitas convenções e regras da língua portuguesa que estejam a ser respeitadas, é adulterar o texto original acrescentando-lhe parágrafos e não é, para mim, de todo aceitável. E também é um problema transversal às traduções do inglês. Tinha acontecido o mesmo com Peito Grande, Ancas Largas, de Mo Yan, que acabei de ler recentemente e também é traduzido do inglês (e eu pude comparar com o inglês).

Estas coisas, ainda que me façam comichão, são questões que enquanto leitor estou disposto a ignorar quando decido ler uma tradução do inglês (mas é por estas questões que raramente leio traduções do inglês; prefiro quase sempre ler o original). O que não posso ignorar, e o motivo real deste texto, são erros de tradução.

No quarto parágrafo da página 12 da edição portuguesa diz-se:

O treinador, com um gesto que não é nem britânico nem australiano, comunica (...)

Torci o nariz. Como serão gestos britânicos ou australianos? Fui ver o original:

The coach, in a slight accent neither British nor Australian, is telling (...)

Ora, “slight accent” é, obviamente, um “ligeiro sotaque”. Faz sentido que um sotaque possa ser britânico ou australiano. Nem sequer é uma palavra difícil de traduzir. O erro é injustificado.

Na página 13, terceiro parágrafo, o deão das Admissões está a falar de incongruências nas notas de Hal Incandenza. E conclui assim:

(...) no ano passado, sim, caiu razoavelmente, mas com isto quero dizer que «caiu» espantosamente depois de três anos de francamente incrível.

Não percebi. Fiquei confuso. Fui ver o original:

(...) this past year, yes, has fallen off a bit, but by the word I mean “fallen off” to outstanding from three previous years of frankly incredible.

Aqui, os tradutores alteram completamente o sentido da frase. Quando dizem que as notas caíram espantosamente, o leitor assume uma queda abrupta. Ou seja, se nos últimos três anos tinham sido incríveis e agora caíram espantosamente, a diferença deve ser abismal. Devem ter caído para valores medíocres. Mas não. O que o original diz é que caíram “to outstanding” de “frankly incredible.” Isto é, os resultados que tinham sido francamente incríveis nos últimos três anos, tinham caído agora para (apenas) espantosos. Logo, é uma queda ligeira. Nunca uma queda espantosa. Isto é um erro de tradução grave que muda o sentido do que é dito.

Na página 17, quarto parágrafo, o deão está a dizer que precisam de se certificar dos resultados escolares de Hal porque não querem admiti-lo na universidade só pelos seus resultados desportivos. Isso seria usá-lo. E levanta uma questão que alguém lhe poderia apontar:

(...) vós estais a usar um rapaz apenas pelas suas qualidades físicas, um rapaz tão tímido e retraído que é incapaz de falar por si mesmo, um jerico com notas de doutor e uma candidatura comprada numa loja qualquer?

Eu, ignorante que sou, não conhecia a palavra jerico. Pensei: que raio é um jerico? Fui ver o original:

(...) here you are using a boy for just his body, a boy so shy and withdrawn he won’t speak up for himself, a jock with doctored marks and a store-bought application.

Torci o nariz. “Jock” é uma expressão popular, quase calão, para os tipos atléticos das escolas e universidades, normalmente parvalhões e populares entre as miúdas. “Jerico” pareceu-me uma palavra vinda de um contexto completamente oposto, uma palavra que tem pouco ou nenhum uso corrente, ao contrário do original inglês. Mas, claro, fui ver ao dicionário, não fosse eu estar a ser injusto e esta ser a palavra perfeita para traduzir “jock.” Jerico é um asno, burro, jumento. Não tem qualquer conotação com desporto. A tradução não faz sentido. Uma vez mais, dá um significado diferente ao que a personagem diz.

Quando Hal responde “Não sou um jerico” está apenas a defender-se da acusação de ser burro. Mas o que ele diz no original é “I am not just a jock.” Ou seja, ele admite que tem qualquer coisa de “jock,” mas é apenas isso. Porque um tipo pode ser desportista e popular entre as miúdas e ter boas notas e ser inteligente. Tendo alterado por completo o sentido da palavra, os tradutores viram-se obrigados a suprimir aquele “just.” Não podiam dizer “Não sou um jerico” porque isso implicava que além de burro, também fosse inteligente, o que é um pouco contraditório.

Tendo lido menos de dez páginas do livro (o texto propriamente dito só começa na página 9) e tendo já encontrado tantos problemas (e estou a deixar de lado questões mesquinhas como a oralidade que se perde em muito do discurso directo), a minha vontade é desistir já, antes de me chatear mais, e ler no original, fazendo o processo inverso: ver como traduziram passagens que me pareçam mais difíceis de compreender. Mas como não quero ser injusto, vou dar mais uma oportunidade por mais umas quantas páginas. O que não podia era deixar de manifestar o meu desagrado com este tipo de erros. Não está na minha natureza promover a mediocridade. E quando leio e calo, sinto que estou a promover. Há quem ache que sou polémico; eu acho que sou honesto. E isso é mais do que se pode dizer da maioria das pessoas.